ENTREVISTA COM O MESTRE DEO
A fim de atender aos constantes pedidos e também para que todos que estão envolvidos de alguma forma com a equipe Deo Jiu-jitsu o conheçam mais, o Mestre Deo nos concedeu uma entrevista, cujas perguntas foram elaboradas por seus próprios alunos.
Alunos: De que forma e quando o jiu-jitsu entrou na sua vida?
Mestre Deo: Pertenço a uma família humilde, portanto morávamos em um subúrbio da cidade do Rio de Janeiro. Como toda criança, eu também adorava brincar, entretanto não tínhamos condições financeiras para ficar comprando brinquedos, logo minha opção de diversão era brincar na rua com os outros meninos, que viviam na mesma realidade tal qual a minha. Dentre as diversas brincadeiras infantis, as preferidas da garotada eram: jogar futebol e lutar. No meu caso, lutar era a brincadeira que mais me fascinava. No entanto, quando chegava a minha casa sujo por ter rolado no chão ao brincar de lutar, apanhava por ter lutado, já que brigar era “coisa de moleque”. Para minha sorte, em 1942, eu tinha nove anos de idade, apareceu em Bento Ribeiro, também subúrbio do Rio de Janeiro, o Professor Fadda, que ensinava como lutar. Aquela notícia despertou meu interesse e fui atrás de conhecer a academia do professor. Minha impressão não podia ser melhor, tanto que, no início, ia diariamente à academia apenas para observar. Mas felizmente, após transpor inúmeras dificuldades, deixei de ir só para assistir aos treinos e passei a treinar também. Enfim, o jiu-jitsu tornou-se parte da minha vida desde o momento em que o conheci, e atualmente não consigo imaginar minha vida sem esse esporte maravilhoso que só me trouxe benefícios.
Alunos: Quem foi o Mestre Fadda? Fale-nos sobre ele.
Mestre Deo: O professor Oswaldo Baptista Fadda nasceu, viveu e morreu em Bento Ribeiro. Homem humilde, conhecedor profundo do jiu-jitsu e o pioneiro a levar a “arte suave” para o subúrbio carioca. Quando, aos 17 anos, era fuzileiro naval da Marinha do Brasil, Oswaldo Fadda começou a treinar jiu-jitsu e foi o melhor pupilo do Professor Luiz França, que fez parte do pequeno grupo de alunos do Conde Koma, introdutor do jiu-jitsu no Brasil, em 1917, na cidade de Belém, no estado do Pará, . No subúrbio em que sempre viveu, com profundo idealismo, divulgou, extraordinariamente, esta modalidade esportiva. Demonstrava, com seus alunos, as técnicas do jiu-jitsu nas favelas, praças públicas, praias, morros, circos, pátios de igrejas e clubes, visando à ampla expansão de sua prática possível a todos. Outra importante atividade, da qual o Mestre Fadda foi pioneiro, era a recuperação, através do jiu-jitsu, de pessoas com anomalias físicas e até mentais, principalmente vítimas de paralisia infantil. Bom, com tantos trabalhos voluntários e tendo como público uma comunidade carente, não lhe restava muito capital para investir em publicidade. O máximo que ele conseguia para poder divulgar sua academia era um pequeno espaço na página de óbitos. Então a solução encontrada pelo Mestre para chamar a atenção da mídia foi a de desafiar a poderosa família dos Gracie. Em 1954, o Mestre Fadda foi aos jornais O Globo e o Diário da Noite e declarou: “Desejamos enfrentar os Gracie, respeitamo-los como incomparáveis adversários, porém não os tememos. Disponho de cerca de vinte alunos para os encontros”. Atendendo as expectativas, Hélio Gracie aceitou o desafio, dizendo-se impressionado pelo cavalheirismo do desafiante e garantiu que as lutas iriam ocorrer na própria sede da academia Gracie, no centro da cidade do Rio de Janeiro. As lutas ocorreram no segundo semestre do mesmo ano, mas dessa vez os fatos foram de encontro às expectativas: a academia Fadda superou a academia dos Gracie, surpreendendo a comunidade do jiu-jitsu. Destaque para a finalização emplacada por José Guimarães, que deixou desacordado Leônidas, então lutador da Gracie. Ao término do desafio, a Academia Fadda, ganhou expressão e notoriedade. “Acabamos com o tabu dos Gracie”, disse Fadda, na época à Revista do Esporte. Helio, impressionado com a técnica dos lutadores suburbanos, declarou que o Jiu-jitsu não era exclusividade de uma família. “É PRECISO EXISTIR UM FADDA PARA MOSTRAR QUE O JIU-JITSU NÃO É PRIVILÉGIO DOS GRACIE”, declarou Hélio na época.
Alunos: Quais foram as mudanças no jiu-jitsu nestes últimos anos?
Mestre Deo: Felizmente tivemos várias. Veja só, quando comecei a treinar, os tatames eram formados por colchões e cobertos por uma lona de caminhão. Depois vieram as placas de palha de arroz e hoje temos o emborrachado. Os quimonos eram feitos de sacos de farinha de trigo, vendidos na padaria; então, depois de alvejados, o próprio Mestre Fadda, com a sua máquina e com um molde de papelão, encarregava-se de costurá-los. Claro que não ficavam perfeitos como os que temos hoje, mas certamente era um orgulho muito grande quando os vestíamos. Tudo isso faz parte da história do início do jiu-jitsu entre nós. Os jovens hoje têm uma responsabilidade muito grande e, felizmente, estão dando provas de que realmente são capazes de dar continuidade ao constante progresso do jiu-jitsu.
Alunos: A criação do Conselho Regional de Educação Física foi útil ao Jiu-jitsu?
Mestre Deo: Com a criação de uma Lei Federal, fui obrigado a fazer o Curso de Provisionado em Educação Física na Universidade Católica de Brasília, em 2002. Pensava que seria tratado em igualdade de condições com os graduados em Educação Física, o que não aconteceu. Faço parte dos registrados ao CREF/7, pago em dia minhas mensalidades. Sou obrigado a votar, porém não posso ser eleito por não ter graduação em Educação Física; entretanto, por alguma ironia do destino, esse tipo de exigência não me será feita caso queira candidatar-me a Presidente da República. Bom, muitas vaidades pessoais e interesses políticos fizeram com que me afastasse. Aprendi na teoria o que já fazia há muitos anos na prática. No final, percebi que todo esse envolvimento com o CREF, todas as promessas de melhorias feitas por este foram apenas uma esperança efêmera e, portanto, praticamente inúteis ao jiu-jitsu.
Alunos: E a violência atribuída ao jiu-jitsu e aos seus lutadores dessa luta?
Mestre Deo: Jiu-jitsu significa a “arte suave”, portanto atribuir violência a essa luta é, no mínimo, uma incoerência. Essa arte marcial dá aos seus praticantes muita autoconfiança, logo um dos trabalhos do professor deve ser o de instruir seus alunos a usarem-na de forma positiva. Enfim, a agressão no esporte pode ser analisada como: instinto, frustração ou comportamento social aprendido. O professor deve estar atento aos comportamentos dos atletas para se antecipar ao problema.
Alunos: Mestre, para terminarmos, por favor, deixe uma mensagem aos seus alunos.
Mestre Deo: A Equipe Deo Jiu-jitsu é realmente uma família, pois o ambiente que criamos faz com que não tenhamos grandes problemas. Os alunos, para mim, são como filhos, pois, se um deles tem algum problema, não consigo deixar de me preocupar e tentar ajudá-lo a resolver aquela situação. Agradeço aos pais pela confiança que sempre depositaram em mim, dando permissão aos filhos de realizarem viagens para as competições. Sei de minha responsabilidade em ajudá-los na formação e educação desses jovens a mim confiados. A amizade é a mesma para todos, independente da classe social. Não faço distinção alguma entre meus alunos, aqui todos são iguais, tanto o médico, o desembargador, como o ex-flanelinha. Não se esqueçam de que o jiu-jitsu é o único esporte que prova a você mesmo do que você é capaz. O nosso corpo é uma máquina, use-o com inteligência, pratique jiu-jitsu!

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